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33 milhões não foram votar. O que a política ainda não entendeu?

Por Christian Jauch, estrategista político e eleitoral
Série Raio-X do Eleitor | Artigo 2

Mais do que um indicador eleitoral, a abstenção apresenta um desafio estratégico: compreender por que parte da sociedade não transforma interesse, preferência ou insatisfação em participação. Investigar esse comportamento exige escuta e cuidado para não atribuir a milhões de pessoas uma única motivação.

A abstenção nas eleições de 2026 merece atenção para além da disputa entre os candidatos: aproximadamente um em cada cinco eleitores aptos não compareceu às urnas. Foram cerca de 33,4 milhões de ausentes no primeiro turno, segundo dados do TSE reproduzidos pela Rádio Senado. No balanço publicado pelo TRE-PI, a taxa nacional aparece como 21,08%.

Esse contingente representa um público amplo, diverso e ainda pouco compreendido. Sua ausência merece espaço na análise eleitoral e no planejamento de quem pretende construir uma relação com a sociedade.

A primeira questão estratégica é reconhecer que o número, sozinho, não explica o comportamento.

Os ausentes não formam necessariamente um bloco de rejeição ou um grupo ideológico. A falta pode resultar de desinteresse, frustração, obstáculos práticos, baixa percepção de diferença entre candidaturas ou de uma situação circunstancial.

Para o marketing político, compreender essas diferenças é fundamental. Antes de definir uma mensagem, precisamos investigar quais problemas, percepções e barreiras participam da decisão de cada pessoa.

A pergunta, portanto, é mais ampla do que “por que essas pessoas não votaram?”. Precisamos perguntar também o que impediu que a participação fosse possível ou parecesse relevante para elas.

Abstenção não é uma mensagem única

Abster-se significa não comparecer. Votar em branco ou anular o voto pressupõe participação na votação. Embora esses comportamentos possam expressar insatisfação, não devemos interpretá-los como manifestações equivalentes.

Uma pessoa pode faltar porque nenhum candidato a convenceu. Outra pode ter preferência definida e não conseguir chegar à seção por motivo de saúde, deslocamento ou emergência familiar. Uma terceira pode apoiar uma candidatura, mas considerar sua presença dispensável.

São possibilidades que produzem o mesmo registro de ausência, mas exigem explicações diferentes.

Por isso, afirmar que nenhum candidato conseguiu se conectar com os ausentes vai além do que a apuração demonstra. A conexão pode ter faltado em parte dos casos. Em outros, pode ter existido sem resultar em comparecimento.

Uma campanha que classifica todos como “despolitizados” ou “decepcionados” corre o risco de substituir investigação por uma interpretação conveniente.

O ponto de partida deveria ser conhecer essas pessoas: o que acompanhavam, se pretendiam votar, quais dúvidas tinham e o que aconteceu no dia da eleição. A comunicação ganha uma base mais consistente quando essas respostas orientam o diagnóstico.

O que mudou por trás de uma taxa quase estável?

No primeiro turno de 2022, o TSE registrou 20,95% de ausentes. Comparado aos 21,08% informados no balanço de 2026, o aumento foi de 0,13 ponto percentual.

A diferença é pequena e não sustenta, sozinha, a ideia de uma ruptura no comportamento eleitoral. O dado mais relevante talvez seja a persistência de um nível elevado de ausência.

Taxas semelhantes, porém, não significam que as mesmas pessoas deixaram de votar.

O percentual agregado pode esconder movimentos diferentes: eleitores que participaram em 2022 e faltaram em 2026, pessoas que fizeram o percurso inverso e mudanças relacionadas a circunstâncias pessoais ou ao contexto da disputa.

Essa é uma questão importante para a estratégia eleitoral. Trabalhar apenas com médias pode deixar de fora justamente as mudanças que merecem atenção.

Além de perguntar qual é o tamanho da abstenção, precisamos investigar quem deixou de comparecer, quais obstáculos encontrou e se sua relação com a política mudou. Sem essas respostas, a tentativa de aproximação tende a partir de suposições.

Quem são os eleitores que não compareceram?

Até a análise realizada em 6 de outubro, as fontes consultadas não ofereciam um retrato nacional consolidado dos ausentes de 2026 por idade, escolaridade e sexo. Não seria correto preencher essa lacuna com dados de quatro anos antes.

A pesquisa histórica ajuda a formular perguntas. No estudo “Afinal, quem foi votar em 2022”, Jairo Nicolau analisou dados da Justiça Eleitoral e identificou menor comparecimento entre pessoas com menos escolaridade.

Entre as faixas sujeitas ao voto obrigatório, os eleitores de 18 a 29 anos apresentaram a menor participação. Entre aqueles com 70 anos ou mais, menos da metade compareceu nos dois turnos. Esses achados dizem respeito a 2022.

O estudo também aponta limitações, como a possibilidade de desatualização da escolaridade registrada no cadastro eleitoral.

Características demográficas ajudam a descrever padrões, mas não explicam sozinhas as motivações. Conhecer a idade de alguém não revela o que essa pessoa espera da política nem por que deixou de votar.

Na comunicação, reconhecer diferenças deve servir para melhorar as perguntas, sem transformar pessoas em estereótipos.

São Paulo e Minas: o território precisa entrar na análise

Em São Paulo, o TRE-SP informou abstenção de 22,5%, aproximadamente 7,6 milhões de eleitores. Na capital, o índice chegou a 23,4%. Em Minas Gerais, o TRE-MG registrou 22,82%, ante 22,29% no primeiro turno de 2022.

Os dois estados ficaram acima dos cerca de 21% nacionais. No Piauí, o tribunal regional registrou 17,15%.

Essas diferenças mostram que o comparecimento varia entre os territórios. Suas causas, contudo, precisam ser investigadas.

Uma média estadual reúne regiões metropolitanas, cidades pequenas e áreas rurais. Condições de transporte, distância até a seção, vínculos comunitários e características das disputas locais podem participar dessa explicação.

Para a comunicação política, o lugar onde o cidadão vive também merece atenção. É ali que ele encontra serviços públicos, conversa com outras pessoas e acumula experiências com instituições e representantes.

Ainda assim, seria um erro atribuir preferência política aos ausentes porque determinado candidato venceu onde eles vivem. O resultado do município descreve os votos registrados. Não revela como votariam aqueles que ficaram de fora.

Uma mensagem pode chegar sem fazer sentido

Uma hipótese importante para compreender parte da abstenção é a falta de relevância percebida.

Uma campanha pode apresentar propostas, ocupar espaços de mídia e alcançar muitas pessoas sem que elas reconheçam uma relação com suas próprias preocupações. Ter contato com uma mensagem não significa necessariamente compreendê-la, confiar nela ou agir a partir dela.

Dizer que saúde é prioridade não esclarece como a fila de atendimento será reduzida. Defender emprego não responde, por si só, à insegurança de quem não sabe como fechar as contas. Falar em mudança também exige explicar o que mudará e com quais consequências.

Para avaliar uma comunicação, vale perguntar se a mensagem foi percebida, compreendida e considerada relevante. São questões diferentes, que não podem ser respondidas apenas pelo número de visualizações.

O desafio estratégico está em tornar os compromissos suficientemente claros para que o cidadão consiga examiná-los. Isso inclui explicar o que depende do cargo disputado, quais são os limites da proposta e como acompanhar seus resultados.

Essa orientação não comprova que a falta de clareza tenha causado a abstenção de 2026. Ela oferece um caminho para investigar a qualidade da relação entre campanhas e sociedade.

Entre ter preferência e comparecer existe uma distância

Uma pessoa pode acompanhar a disputa e não votar. Pode ter preferência e enfrentar um impedimento. Pode concordar com uma proposta e não considerar sua participação relevante.

Por isso, interesse, preferência e comparecimento precisam aparecer como questões distintas na análise.

Uma pesquisa sobre esse comportamento deveria perguntar se a pessoa pretendia votar, se tinha uma escolha definida e o que ocorreu entre essa intenção e o dia da eleição. Sem essa sequência, é fácil atribuir à comunicação um problema que pode ter outra origem.

Também é possível que diferentes fatores se acumulem. Uma dificuldade de deslocamento pode coexistir com pouco interesse. Uma pessoa pode confiar em um candidato e, ao mesmo tempo, estar desanimada com o funcionamento das instituições.

A aproximação com esse público exige reconhecer essa complexidade. Não há fundamento para presumir que um anúncio de última hora resolveria todas essas situações.

Como ouvir quem se afastou

Uma investigação séria começaria com perguntas abertas:

  • O que aconteceu no dia da eleição?
  • A pessoa pretendia votar?
  • Tinha preferência por alguma candidatura?
  • Encontrou algum obstáculo?
  • Acompanhou a campanha?
  • O que esperava dos candidatos?
  • Que dúvidas permaneceram?

Perguntar apenas “por que você desistiu da política?” já pressupõe desistência. A pergunta pode induzir a resposta e esconder situações diferentes.

Também é insuficiente ouvir somente apoiadores, participantes de eventos e seguidores ativos. Esses interlocutores são importantes, mas não representam necessariamente quem mantém distância das campanhas.

A escuta precisa admitir dúvidas e críticas que contrariem a interpretação da equipe. Se todas as respostas servem apenas para confirmar a mensagem que já estava pronta, pouco se aprendeu.

Para a comunicação política, ouvir tem consequência quando permite revisar uma explicação, reconhecer um problema negligenciado ou perceber que uma promessa parece pouco crível. O resultado pode exigir mudanças mais profundas do que a troca de palavras numa publicação.

Ampliar o diálogo sem abandonar a base

Uma preocupação recorrente entre candidaturas é que conversar com pessoas mais distantes possa afastar quem já apoia.

Esse risco existe. Não há fórmula capaz de garantir novos apoios e preservar integralmente os anteriores. A política envolve escolhas, prioridades e conflitos reais.

Ainda assim, ampliar a conversa pode significar explicar melhor compromissos já assumidos. Uma candidatura pode manter suas posições e ouvir perguntas de quem não compartilha todas as suas referências.

Imagine uma proposta para reduzir a espera por consultas médicas. Apoiadores e cidadãos sem vínculo partidário podem avaliá-la por perspectivas diferentes. Ambos, porém, têm o direito de conhecer os critérios, os recursos necessários, o prazo e os mecanismos de acompanhamento.

A explicação precisa ser compreensível e manter o mesmo compromisso diante de todos.

Adaptar exemplos e linguagem não deveria produzir versões incompatíveis da candidatura. Se uma posição muda, a mudança precisa de justificativa pública. Se permanece, deve suportar perguntas que venham de fora do grupo de apoiadores.

A coerência oferece um critério para conduzir esse diálogo: quem já confia e quem está se aproximando precisam saber o que a candidatura defende e quais escolhas decorrem dessa posição.

A relação continua depois da eleição

Uma reflexão sobre conexão política ficaria incompleta se terminasse na propaganda.

Durante o mandato, o cidadão pode comparar o que ouviu com aquilo que aconteceu. Prestar contas inclui explicar uma entrega, mas também um atraso, uma limitação ou uma promessa que não avançou.

A comunicação de mandato precisa oferecer informação e possibilidade de acompanhamento. Mostrar atividades não esclarece, automaticamente, seus resultados.

Imagine alguém que apresenta uma demanda a um representante. Receber uma resposta clara, mesmo quando a solução não é imediata, oferece uma experiência diferente de encontrar silêncio até a eleição seguinte. É um exemplo hipotético, mas ajuda a pensar sobre a relação institucional.

Sentir-se representado talvez envolva perceber que sua presença importa mesmo quando você não está oferecendo um voto, um elogio ou um compartilhamento.

Essa continuidade merece fazer parte da reflexão sobre confiança. Não sabemos, com os dados aqui examinados, quanto ela explica a participação eleitoral. Mas podemos perguntar que tipo de relação a política oferece nos intervalos entre as campanhas.

O que a abstenção exige da comunicação política?

O primeiro cuidado é distinguir ausência de rejeição. O segundo é reconhecer que pessoas com o mesmo comportamento registrado podem ter chegado a ele por caminhos diferentes.

Também precisamos avaliar a comunicação além do alcance. Uma mensagem pode circular, ser lembrada e ainda deixar dúvidas sobre a proposta ou sobre quem a apresenta.

Para o planejamento, isso significa combinar pesquisa, clareza de compromissos e acompanhamento da relação com o cidadão. Significa também reconhecer quando o problema exige uma resposta institucional, e não apenas uma peça de comunicação.

Se alguém enfrentou uma barreira de acesso, é necessário compreender essa dificuldade. Se relata desconfiança, cabe investigar suas experiências. Se não percebe diferença entre as candidaturas, é preciso ouvir o que recebeu e como interpretou as mensagens.

São caminhos de investigação. Não constituem receitas comprovadas para transformar os ausentes em eleitores de determinado candidato.

O silêncio das urnas ainda precisa ser ouvido

Quem faltou em um turno não deve receber um rótulo permanente de eleitor ausente. Em 2022, a abstenção nacional caiu de 20,95% no primeiro turno para 20,59% no segundo. Essa variação mostra que o comparecimento pode mudar, embora não identifique, sozinha, quem voltou ou por quê.

No caso de 2026, ainda precisamos compreender quanto da ausência decorreu de impedimentos, quanto expressou afastamento e quanto reuniu motivos sobrepostos.

Tratar todos esses cidadãos como indiferentes seria tão precipitado quanto declarar que todos rejeitaram a política.

No artigo anterior, propus a reflexão de que, em alguma medida, o eleitor vota em si mesmo: no que acredita, no que precisa e no futuro que deseja. A ausência acrescenta uma pergunta: quem não votou deixou de se reconhecer nas opções ou encontrou dificuldades para transformar sua preferência em participação?

O desafio de quem pretende representar mais pessoas começa por levar essas diferenças a sério. A aproximação precisa fazer sentido para quem está distante e ser coerente com os compromissos assumidos diante de quem já confia.

Antes de perguntar como conquistar os ausentes, precisamos perguntar o que os afastou. E estar dispostos a ouvir algo diferente do que esperávamos.

Sobre o autor

Christian Jauch é estrategista político e eleitoral e autor da série Raio-X do Eleitor, dedicada à reflexão sobre comportamento eleitoral, marketing e comunicação política.

Fontes e referências

Nota de apuração: análise baseada em fontes consultadas em 6 de outubro de 2026. O título arredonda o contingente para 33 milhões. As explicações sobre os motivos da ausência são hipóteses; não houve entrevistas próprias nem mensuração do efeito das campanhas sobre o comparecimento.

Foto de Christian Jauch

Christian Jauch

Christian Jauch é estrategista político, com formação em Publicidade e passagem pela Engenharia da Computação. Soma 20 anos de experiência em campanhas em São Paulo, Minas Gerais e Brasilia, além de 12 anos de atuação no segmento da OAB. Possui MBA em Gestão Governamental e Marketing Político pelo IDP Brasília, é cofundador da Alcateia Política e membro do CAMP.

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