O debate político brasileiro se acostumou a funcionar a partir de narrativas prontas. De um lado, qualquer adversário é chamado de fascista. Do outro, toda crítica é tratada como censura, perseguição ou ameaça à liberdade. Cada grupo se coloca como o último defensor da democracia e enquadra o outro como uma ameaça que precisa ser eliminada, não enfrentada no campo das ideias.
Essa lógica mobiliza rápido porque dispensa explicação. Aciona medo, identidade e pertencimento. É muito mais simples dizer que o outro lado é o inimigo do que discutir orçamento, segurança, saúde, emprego, infraestrutura, prioridades e resultados. Quem perde é o eleitor, que recebe indignação no lugar de informação e passa a acompanhar a política como se ela fosse uma guerra sem fim.
Isso não significa relativizar atitudes autoritárias, ataques às instituições, violência política ou desinformação. Quando há fatos, eles precisam ser chamados pelo nome. O problema começa quando palavras graves deixam de descrever comportamentos concretos e viram rótulos automáticos para quem pensa, vota ou discorda diferente. A palavra se esvazia, o debate empobrece e a democracia perde qualidade.
O marketing político não pode ser só a fábrica de indignação
É nesse ponto que o marketing político deveria cumprir um papel mais responsável. Não cabe a ele, sozinho, resolver a polarização, mas cabe definir o enquadramento de uma campanha, o tom da conversa e a forma como os fatos chegam ao eleitor. É possível disputar com firmeza, comparar trajetórias, expor incoerências e cobrar explicações sem transformar cada adversário em inimigo moral. É possível fazer contraste sem mentir, humilhar ou estimular hostilidade.
Na prática, muitos profissionais fazem o contrário. Passam a reproduzir o comportamento que deveriam ajudar a moderar. Compram a visão de mundo do candidato como se ela fosse análise objetiva, confundem militância com estratégia e começam a acreditar nas próprias narrativas sem o distanciamento que o trabalho exige.
Esse é um problema profissional antes de ser ideológico. O marqueteiro não deveria servir para amplificar impulsos, ressentimentos e certezas do candidato. Seu papel é fazer perguntas incômodas. Isso é verdade? Pode ser provado? Ajuda a convencer quem ainda não está conosco? Cria um risco jurídico ou reputacional? Existe uma proposta concreta por trás dessa crítica?
Quando essas perguntas desaparecem, a comunicação perde inteligência. A campanha passa a falar apenas com quem já concorda, alimenta o aplauso da própria bolha e deixa de construir maioria. Curtidas, compartilhamentos e comentários inflamados podem dar a impressão de força, mas, muitas vezes, são só o barulho de uma base que já estava mobilizada.
O que uma comunicação mais responsável exige
Frear o discurso de ódio não é defender uma política morna ou sem contraste. Política é disputa, e o eleitor precisa saber onde estão as divergências. A diferença está no método. Uma comunicação adulta compara entregas, escolhas e consequências. Questiona promessas inviáveis, mostra incoerências documentadas, cobra posições claras e explica como uma proposta será executada. Pode ser dura, e em muitos momentos precisa ser. Só não precisa desumanizar ninguém para funcionar.
Também exige que a equipe tenha distância emocional suficiente para enxergar o próprio lado. Nenhuma candidatura é infalível e nenhum grupo político está imune a exageros, erros ou contradições. Quando o profissional não consegue alertar o cliente de que a narrativa passou do limite, ele deixa de ser estrategista e vira apenas mais um integrante da torcida.
A escolha é estratégica, não só moral
Tratar a moderação como ingenuidade é um erro de leitura. O eleitor cansado de conflito não procura necessariamente um candidato sem posição. Procura alguém capaz de defender posições sem parecer incapaz de conviver com o dissenso. E, em eleições apertadas, é justamente esse eleitor que costuma fazer a diferença.
O desafio do marketing político não é encontrar uma frase mais agressiva para ganhar a próxima discussão. É recuperar a capacidade de organizar um debate que ajude o cidadão a decidir melhor. A democracia não se fortalece quando todos concordam. Ela se fortalece quando a divergência encontra limites, responsabilidade e algum compromisso com a realidade. O marketing político pode aprofundar a trincheira ou ajudar a construir pontes. Hoje, com frequência preocupante, tem escolhido a trincheira.


