A Crise de Credibilidade que Redesenha o Ecossistema da Comunicação-NilsonHashizumi-AlcateiaPolitica

Quando a Névoa Sobe: A Crise de Credibilidade que Redesenha o Ecossistema da Comunicação

Por Nilson Hashizumi — Alcateia Política

No começo era só uma névoa fina. Um incômodo quase imperceptível que pairava sobre o caminho. Não atrapalhava a visão de quem caminhava, mas estava lá: insistente, silenciosa, anunciando que algo no ecossistema da comunicação — esse espaço onde respiramos notícias, opiniões, disputas narrativas e afetos — começava a mudar.

Com o tempo, a névoa cresceu.
E, de repente, percebemos que não era apenas uma mudança climática: era a paisagem inteira se transformando.

Durante décadas, convivemos com uma estrutura bastante estável. Os jornais, as revistas, as rádios e as emissoras de televisão eram como árvores de grande porte: profundas raízes financeiras, troncos robustos, galhos estendidos que alcançavam milhões de pessoas. Eram negócios — e como todo negócio, buscavam lucro. Dependiam de anunciantes, publicidades, interesses econômicos.
No fundo, sempre soubemos que suas folhas podiam balançar ao sabor de ventos externos.

A questão é que, nos últimos anos, uma tempestade digital tomou conta da floresta.

A fuga da intermediação: quando cada pessoa descobriu sua própria voz

Com a internet e, mais tarde, com as plataformas de relacionamento, abriu-se uma clareira inesperada: a possibilidade de falar diretamente com outras pessoas, sem a sombra das grandes árvores tradicionais. Era como se alguém tivesse dito:“Escolha um pedaço de terra, plante seu conteúdo e veja quem aparece para te ouvir.”

Muitos apareceram.
E apareceram em massa.

O Google, ainda em 2007, enxergou o potencial dessa nova mata nascente e lançou programas de monetização para transformar produtores de conteúdo em parceiros. Ali germinou o que hoje chamamos de influenciadores(as): gente que aprendeu a cultivar audiência como quem cultiva um jardim — com frequência, dedicação, estética, narrativa e proximidade emocional.

De recomendadores de produtos a comentaristas de política, de especialistas autodidatas a entertainers, criaram-se verdadeiros biomas de opinião.

E, assim como toda floresta viva, esses biomas têm flores e espinhos.

Quando a influência se torna risco: autoridade sem raiz, certezas sem solo

A expansão foi tão rápida que muitos influenciadores passaram a ocupar espaços de autoridade que antes eram reservados a profissionais formados, regulados e institucionalmente reconhecidos.
De repente, alguém com boa dicção e um celular falava sobre:

  • Medicina como se tivesse estudado anatomia,
  • Finanças como se entendesse risco sistêmico,
  • Direito como se interpretasse precedentes,
  • Política como se tivesse lido teoria, histórico, contexto.

Algumas pessoas fazem isso com responsabilidade admirável.
Mas outras… outras apenas repetem o que ouviram, amplificam rumores, inventam certezas, recortam fatos para caber na narrativa, ou simplesmente apostam em polêmica porque sabem que polêmica retém audiência.

A China, observando esse movimento, decidiu exigir diploma ou certificação mínima para influenciadores que falam sobre temas sensíveis. Uma decisão dura? Talvez. Mas parte de um diagnóstico irrefutável: a desinformação virou problema de saúde pública.

O pêndulo da credibilidade: dos grandes veículos aos microcomunicadores

O curioso é que, na tentativa de fugir da intermediação dos veículos tradicionais, muitos caíram em uma intermediação ainda mais invisível: a do algoritmo.
O sistema que decide o que vemos, o que não vemos, o que viraliza e o que desaparece antes mesmo de chegar aos nossos olhos.

Trocaram o editor pelo código.
Trocaram o jornalista pelo influenciador.
Trocaram o jornal corporativo pela timeline personalizada.

E agora vivem outra pergunta incômoda:

“Será que essa pessoa sabe do que está falando — ou só está dizendo o que gera engajamento?”

A crise de credibilidade não acabou. Ela só mudou de endereço.

A responsabilidade que volta para quem consome: a curadoria como hábito diário

Se antes cabia ao público desconfiar de manchetes e editoriais, agora a tarefa é ainda mais complexa: desconfiar do conteúdo que parece pessoal, íntimo, emocionalmente próximo.

Antes de acreditar ou compartilhar qualquer coisa, vale fazer pausas simples, mas poderosas:

  • Essa pessoa tem formação no que está explicando?
  • Ganha dinheiro para recomendar o que recomenda?
  • Já errou? Corrigiu?
  • Mostra fontes, dados, contexto?
  • Quer estimular reflexão ou entregar certezas embaladas em afeto?

Porque, convenhamos: ser simpático não é ser competente.
E ter muitos seguidores não significa ter raízes profundas naquilo que se propõe a ensinar.

A clareira possível: reconstruir credibilidade exige todos nós

Os veículos tradicionais precisam rever práticas, enfrentar vieses e reconectar-se ao público.
As plataformas precisam assumir que são mais do que ferramentas neutras — são agentes políticos e econômicos da nova comunicação.
Os influenciadores precisam entender que audiência é responsabilidade, não só oportunidade.

Mas nós — cada um de nós — também fazemos parte dessa floresta.
E se quisermos navegar por ela sem nos perder, precisamos reaprender a perguntar:

“Isso faz sentido? De onde vem essa informação? Por que essa pessoa está dizendo isso?”

No fim, quando a névoa sobe, a paisagem aparece.
E aí percebemos que credibilidade é como uma trilha bem marcada: não se constrói sozinha, não se mantém por acaso e não pode ser seguida de olhos fechados.

Cabe a nós escolher por onde caminhar — e quem merece caminhar ao nosso lado.

Foto de Nilson Hashizumi

Nilson Hashizumi

Estrategista de marketing político e corporativo, jornalista, fotógrafo, gestor de cultura e preparador de candidatos, grupos e agremiações políticas, com MBA em Comunicação Governamental e Marketing Político. Co-fundador da Alcateia Política, orientou, coordenou e defendeu candidatos majoritários em São Paulo e Pará e candidatos proporcionais em São Paulo e Minas Gerais. Orientado a resultados, trabalha com visão de processos na gestão da comunicação on e off-line para a construção de reputação, imagem e formação de opinião. Atuou por mais de 30 anos na iniciativa privada, organizações da sociedade civil e entidades de classe antes de atuar em favor de entes políticos. Associado ao CAMP. https://www.linkedin.com/in/nilsonhashizumi/

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