Por Christian Jauch, estrategista político e eleitoral
Série RAIO-X DO ELEITOR | Artigo 1
As eleições de 2026 oferecem pistas sobre o peso das propostas, dos valores e da identificação na escolha do voto. O desafio é compreender como esses fatores se encontram.
Lucas Pavanato recebeu mais de 3 milhões de votos para deputado federal por São Paulo. Erika Hilton ultrapassou 1,5 milhão. Adversários políticos, com posições diferentes sobre temas centrais do debate público, terminaram nas duas primeiras posições da disputa paulista. Os números, publicados pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo, colocam uma pergunta diante de quem procura compreender o comportamento eleitoral brasileiro: o que levou tantas pessoas a se reconhecerem nessas candidaturas? [1]
Seria a força das propostas? A exposição nas redes sociais? O posicionamento diante de assuntos que dividem a sociedade? Ou a percepção de que aquelas pessoas representam algo que o eleitor deseja defender?
O primeiro turno das eleições de 2026, realizado em 4 de outubro, permite investigar essas possibilidades. Ainda não oferece uma resposta definitiva. Mas convida a olhar para o voto como uma decisão que pode reunir necessidades concretas, expectativas, valores e sentimentos de pertencimento.
O que significa pertencimento na escolha do voto?
Pertencimento político é a sensação de encontrar representação em um candidato, partido ou grupo. Essa identificação pode nascer de valores compartilhados, de uma experiência de vida, de uma causa ou da oposição a algo considerado injusto ou ameaçador. Ela não exige concordância com todas as propostas.
Um eleitor pode conhecer pouco de um programa de governo e, ainda assim, acreditar que determinado candidato compreende suas preocupações. Outro pode estudar propostas e escolher justamente aquela que expressa sua visão de sociedade. Nos dois casos, identificação e avaliação política podem caminhar juntas.
É por isso que a pergunta do título precisa ser examinada com cuidado. Proposta e pertencimento não são necessariamente alternativas excludentes. A defesa de uma política pública também informa quais problemas o candidato considera importantes e quais pessoas pretende atender.
Para a análise eleitoral, a questão mais produtiva talvez seja investigar quando uma proposta se transforma em identificação. O que faz uma promessa ser percebida como resposta concreta à própria vida, enquanto outra, aparentemente semelhante, passa despercebida?
O que as eleições de 2026 mostram sobre o eleitor brasileiro
Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, e Lula, com 45,16%, conforme a totalização divulgada pela Agência Estado a partir dos dados do TSE. Juntos, concentraram 92,19% dos votos válidos. O espaço eleitoral fora das duas candidaturas permaneceu reduzido. [2]
Essa concentração confirma a força dos principais polos políticos. Não esclarece, sozinha, quanto cada eleitor votou por confiança, avaliação de governo, convicção ideológica ou rejeição ao adversário. O resultado registra a escolha, mas não descreve todo o caminho que levou até ela.
Uma pessoa pode votar para preservar políticas que considera importantes. Outra, para mudar a condução da economia. Há quem procure proteção para valores religiosos ou familiares e quem priorize direitos sociais. Motivos diferentes podem desembocar no mesmo candidato.
O cuidado é especialmente importante quando tentamos definir o perfil do novo eleitor. Não existe um brasileiro único por trás das urnas. Existem pessoas que atribuem pesos diferentes à experiência administrativa, às condições de vida, à confiança e ao posicionamento político.
Chamar esse eleitor de novo é uma provocação para investigar mudanças. Não significa supor que identidade, emoção e pertencimento estavam ausentes das eleições anteriores.
Representar uma causa também pode significar apresentar um projeto
Nas eleições para deputado, a relação entre identidade e proposta aparece de maneira particularmente interessante. Pavanato e Erika Hilton têm posições públicas reconhecíveis e trajetórias com presença digital. Isso facilita identificar suas diferenças. Não permite, porém, reduzir suas votações a uma única motivação.
Erika, por exemplo, associa a defesa dos direitos da população LGBTQIA+ à discussão sobre o fim da escala de trabalho 6×1. Uma pauta diz respeito a reconhecimento e direitos; a outra trata diretamente do tempo de trabalho e descanso. Ambas podem expressar uma visão de sociedade. [3]
Em Minas Gerais, Ana Elisa, do PT, foi eleita aos 21 anos. Segundo a Agência Brasil, sua campanha combinou atuação nas redes com propostas sobre ensino público, primeiro emprego, transporte universitário, combate ao racismo e jornada de trabalho. O caso impede tratar uma candidatura digital como sinônimo de ausência de conteúdo. [4]
Esses exemplos ajudam a qualificar a reflexão. Uma causa pode ser identificada com determinado campo ideológico e, simultaneamente, envolver consequências práticas. Direitos, segurança, educação e trabalho são assuntos sobre os quais se constroem tanto políticas públicas quanto vínculos de representação.
O que precisa ser investigado é o peso de cada dimensão. Reconhecer a presença da identidade não autoriza concluir que o eleitor deixou de se importar com resultados. Tampouco a existência de propostas comprova que foram elas, isoladamente, que determinaram o voto.
Conhecer um candidato é diferente de confiar nele
Uma das perguntas da comunicação política é como a familiaridade se transforma em confiança. Ver alguém repetidamente pode tornar seu nome conhecido, mas não esclarece se o eleitor o considera preparado, coerente ou próximo de suas preocupações.
A mesma exposição pode gerar admiração, indiferença ou rejeição. Por isso, quantidade de seguidores e visualizações não deve ser tratada automaticamente como intenção de voto. A audiência de um perfil pode incluir adversários, pessoas de outros estados e gente que acompanha uma discussão sem desejar eleger seu protagonista.
Nas redes, um posicionamento público oferece ao eleitor elementos para interpretar o candidato. A maneira como responde a uma crítica, escolhe uma pauta ou trata quem discorda pode participar dessa avaliação. A hipótese é que tais sinais ajudem a construir uma ideia de coerência ao longo do tempo.
Mas essa hipótese precisa de investigação. Seria necessário acompanhar conteúdos, públicos e decisões eleitorais para medir sua influência. Selecionar apenas os influenciadores que venceram deixaria de fora todos aqueles que também tiveram exposição e não conseguiram uma cadeira.
O eleitor pode se identificar e, ainda assim, fazer escolhas diferentes
São Paulo oferece um contraste útil. Tarcísio de Freitas foi reeleito governador com 62,65% dos votos válidos, segundo o TSE. Flávio Bolsonaro recebeu 51,93% para presidente no estado, conforme a cobertura do UOL. As candidaturas tiveram desempenhos diferentes dentro de um campo político próximo. [5], [6]
Essa diferença sugere alcances eleitorais distintos. Não permite calcular diretamente quantas pessoas cruzaram o voto, porque cada disputa tem candidatos e totais de votos válidos próprios. Ainda assim, torna inadequada a ideia de que uma identificação nacional determina automaticamente todas as escolhas.
O eleitor pode atribuir importância à gestão quando escolhe um governador e dar maior peso a valores quando escolhe um deputado. Pode também fazer o contrário. A função do cargo, a experiência com os candidatos e os problemas percebidos podem alterar os critérios de decisão.
Esse comportamento merece ser levado a sério. Antes de classificá-lo como incoerência, cabe perguntar se a pessoa está respondendo a questões diferentes em cada votação. Representação política envolve expectativas que não são iguais para todos os cargos.
Obras, resultados e presença territorial continuam na discussão
Seria precipitado usar as grandes votações de figuras digitais para anunciar o fim do político conhecido por obras, recursos e presença nas cidades. Demonstrar essa transformação exigiria comparar trajetórias, investimentos, bases territoriais e resultados de muitas candidaturas, incluindo as derrotadas.
Uma realização pode ser avaliada pelo benefício que oferece e pelo vínculo que ajuda a construir. Pense em uma família que passou anos esperando atendimento especializado. Se reconhece a atuação de alguém para melhorar esse serviço, pode enxergar simultaneamente uma entrega e um representante de sua necessidade.
O exemplo é hipotético, mas ajuda a entender por que resultado e pertencimento podem se aproximar. O vínculo não depende apenas de discursos sobre valores. Também pode surgir quando uma ação pública faz alguém sentir que sua dificuldade foi compreendida.
Há, contudo, uma distância entre realizar, comunicar e ser reconhecido por uma entrega. Constatar essa distância não significa culpar o eleitor por desconhecer um trabalho. Significa investigar como a informação circula e como a população atribui responsabilidade pelo que melhorou ou deixou de melhorar.
Por outro lado, identificação não é uma garantia permanente. A confiança conquistada por uma causa pode ser questionada quando o comportamento ou a atuação do representante deixa de corresponder à expectativa que ajudou a elegê-lo.
O que essa reflexão acrescenta à estratégia política eleitoral?
Na estratégia política eleitoral, essa discussão pede uma leitura mais completa da relação entre candidato e sociedade. Um inventário de entregas mostra o que foi realizado, mas pode deixar pouco claro qual compromisso dá continuidade àquela atuação. Uma declaração de valores pode ser compreensível e, ainda assim, não explicar como enfrentar problemas reais.
A comunicação política precisa tornar essas relações compreensíveis. Quando alguém fala de segurança, por exemplo, de quais problemas está tratando? Como suas posições se traduzem em decisões? Que experiência ou proposta sustenta o compromisso apresentado?
A mesma exigência vale para liberdade, família, inclusão e justiça social. São palavras que admitem interpretações diferentes. Sem explicação e consequência prática, podem dizer pouco sobre a atuação que se pretende exercer.
Compreender o comportamento eleitoral também requer escuta. As categorias usadas por partidos e profissionais de campanha nem sempre correspondem à maneira como as pessoas organizam suas preocupações. Um assunto tratado como ideológico no debate público pode ser vivido como uma dificuldade cotidiana por quem precisa de uma solução.
Essa leitura não oferece uma fórmula para ganhar eleições. Ela ajuda a formular perguntas melhores sobre confiança, representação e responsabilidade. E evita transformar o eleitor em alguém que responderia sempre ao mesmo estímulo.
Afinal, o eleitor vota em propostas ou em pertencimento?
Os resultados de 2026 permitem observar candidaturas que combinaram causas reconhecíveis, comunicação pública e propostas. Não permitem estabelecer, com os dados aqui examinados, que pertencimento passou a pesar mais do que realizações em todas as escolhas. Essa é uma hipótese a investigar, não uma conclusão pronta.
Para avançar, será necessário ouvir os eleitores, comparar campanhas e observar diferenças entre cargos e territórios. A votação expressiva de um candidato ajuda a escolher onde olhar. Não explica, por si só, por que ele foi escolhido.
Talvez uma parte da resposta esteja na relação entre três perguntas. O que essa pessoa fez? O que pretende fazer? E por que acredito que compreende aquilo que importa para mim?
É possível que o eleitor procure soluções e, ao mesmo tempo, queira se reconhecer em quem as apresenta. A escolha pode carregar uma expectativa de melhoria e uma afirmação sobre valores que deseja ver respeitados.
Quando alguém diz “essa pessoa me representa”, está falando de concordância, confiança, experiência ou esperança? E quanto de cada uma dessas coisas cabe no mesmo voto?
Independentemente das respostas, essa reflexão nos leva a uma ideia: em alguma medida, o eleitor vota em si mesmo.Vota no que acredita, no que precisa, no que teme perder e no futuro que deseja construir. Ao escolher quem o representa, revela também um pouco de quem é e da sociedade em que deseja viver.
Sobre o autor: Christian Jauch é publicitário e estrategista político, com atuação em estratégia política eleitoral, comunicação governamental, marketing político e branding. É autor da série O Raio X do eleitor, dedicada à análise do comportamento eleitoral e da representação política no Brasil. É cofundador da Alcateia Política e membro do CAMP.
Fontes e nota de apuração
Análise elaborada com informações consultadas em 5 de outubro de 2026. Os resultados eleitorais identificam escolhas; as explicações sobre motivação apresentadas no artigo são hipóteses e interpretações, não conclusões de pesquisa individual com eleitores. As contagens citadas não decorrem de auditoria própria dos microdados.
- TRE-SP: deputados federais eleitos em São Paulo em 2026, com 100% de apuração.
- Agência Estado/UOL: totalização presidencial com 100% das seções.
- UOL: perfis dos cinco deputados federais mais votados de São Paulo.
- Agência Brasil: perfil e propostas de Ana Elisa.
- TSE: reeleição de Tarcísio de Freitas, com 100% das urnas apuradas.
- UOL: votação presidencial nos estados e redutos dos candidatos.


