Homem preocupado analisa contas em uma lanchonete, enquanto militantes políticos agitam bandeiras na rua e televisores exibem notícias e futebol ao fundo.

A campanha já começou. Mas o eleitor ainda não entrou nela.

Para os políticos, a campanha eleitoral está a mil.

Está a mil na cabeça dos candidatos, dos assessores, dos marqueteiros, dos coordenadores, dos cabos eleitorais, dos balançadores de bandeira e das formiguinhas que percorrem bairros, cidades e estradas distribuindo santinhos, adesivos e promessas.

Está a mil nos comitês, nos grupos de WhatsApp, nas reuniões que começam cedo e terminam tarde. Está nas pesquisas, nas planilhas, nas agendas, nas gravações de vídeos e na preocupação diária com aquilo que o adversário publicou.

Para quem vive a política por dentro, a eleição parece ser o assunto mais importante do mundo.

Mas não é.

Pelo menos, ainda não é para o povo.

Enquanto os candidatos contam os dias para 4 de outubro, a maioria das pessoas está contando os dias para o próximo pagamento. Está tentando fazer o salário durar até o fim do mês, pagar o aluguel, a escola dos filhos, a prestação do carro, o cartão de crédito, o supermercado e uma conta de luz que teima em chegar mais alta.

O eleitor está preocupado com o preço das coisas, com o medo de perder o emprego, com a dificuldade de conseguir atendimento médico, com a violência, com os problemas da família e com a incerteza sobre o futuro.

Também está preocupado com os escândalos que chegam de Brasília, com as revelações que aparecem todos os dias e com as consequências de cada nova bomba política.

E, no intervalo disso tudo, ainda encontra tempo para sofrer com o time do coração, que ganha uma partida, perde outra e, muitas vezes, consegue provocar mais emoção do que um discurso político cuidadosamente ensaiado.

Essa é uma realidade que muita campanha demora a compreender: a propaganda eleitoral já começou, mas a eleição ainda não começou na cabeça das pessoas.

Os candidatos estão vivendo desde a pré-campanha  como se o eleitor já estivesse diante da urna. O eleitor, porém, ainda está decidindo o que fazer no fim de semana.

Nós, que trabalhamos com política, temos a tendência de acreditar que todas as pessoas estão acompanhando cada movimento da campanha. Achamos que elas perceberam a mudança de slogan, repararam na nova identidade visual, assistiram ao programa eleitoral e entenderam a diferença entre uma proposta e outra.

Na prática, uma parcela enorme da população ainda não sabe sequer quem são todos os candidatos e muitos, pasmem, não sabem nem que esse ano teremos eleições daqui a 20 e poucos dias.

Pode ter visto um rosto na televisão, encontrado uma bandeira na avenida ou recebido um vídeo pelo WhatsApp. Isso, entretanto, não significa que tenha prestado atenção, memorizado o nome ou criado alguma preferência.

A maioria das campanhas está falando muito para pessoas que ainda estão ouvindo pouco.

Historicamente, o interesse eleitoral cresce de verdade nas últimas semanas. É quando a votação deixa de parecer um acontecimento distante e passa a ser uma decisão inevitável. A partir do dia 20 de setembro — e olhe lá — o eleitor começa a fazer as perguntas mais objetivas: quem são os candidatos? Em quem minha família vai votar? Qual é o número? Quem tem chance? Quem eu não quero que seja eleito?

Até lá, a política disputa espaço com uma infinidade de preocupações mais urgentes e assuntos muito mais interessantes aos olhos da população.

Os desdobramentos do caso envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master são um exemplo evidente disso. A cada nova informação, surgem personagens, mensagens, contratos, autoridades, instituições e possíveis conexões políticas. O caso atravessou o sistema financeiro e alcançou o debate sobre o Congresso, o governo, o Banco Central, a Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal. Em setembro, vieram a público novas informações atribuídas a relatórios da investigação, além da retirada de sigilo de parte do material pelo ministro André Mendonça. Tudo isso chama muito mais atenção, hoje, do que a escolha de um candidato a deputado.

Não porque a eleição seja menos importante, mas porque o escândalo oferece aquilo que a campanha ainda não conseguiu oferecer ao eleitor: novidade, tensão, personagens conhecidos, conflito e a expectativa de uma próxima revelação.

E existe uma razão ainda mais forte para tanta gente adiar sua escolha: até 4 de outubro, muita bomba pode explodir na cabeça de alguns candidatos.

A campanha que hoje parece sólida pode entrar em crise amanhã. Um nome bem-posicionado pode aparecer em uma investigação. Uma gravação pode surgir. Uma declaração desastrosa pode viralizar. Uma aliança pode se desfazer. Um candidato pode crescer inesperadamente e outro pode desaparecer.

O eleitor sabe, ainda que intuitivamente, que não precisa decidir agora.

Por isso, não adianta a campanha reclamar que “o povo não está interessado”. Cabe à campanha criar interesse. E isso não se faz apenas aumentando o volume do carro de som, multiplicando bandeiras ou publicando dez vídeos por dia.

Faz-se entrando na vida real das pessoas.

Uma campanha começa a ser ouvida quando deixa de falar somente sobre o candidato e passa a falar sobre aquilo que o eleitor está vivendo. Quando compreende que, antes de pedir um voto, precisa responder a uma preocupação. Antes de apresentar um currículo, precisa mostrar utilidade. Antes de repetir um número, precisa construir uma razão para que aquele número seja lembrado.

É preciso ter paciência, mas também estratégia.

As primeiras semanas servem para construir presença, apresentar o candidato, organizar as bases e preparar o terreno. As duas últimas servem para concentrar a mensagem, produzir contraste, mobilizar os apoiadores e transformar reconhecimento em decisão.

Quem gastar toda a força agora poderá chegar cansado justamente quando o eleitor começar a prestar atenção. Quem deixar tudo para a última hora talvez descubra que presença não se constrói de um dia para o outro.

O desafio está em entender o tempo da campanha sem confundi-lo com o tempo do eleitor.

Dentro do comitê, cada dia parece decisivo. Fora dele, ainda há gente que nem percebeu que a corrida começou.

A propaganda já está nas ruas, nas telas, nas rádios e nos celulares. Os candidatos já discursam como se cada palavra estivesse sendo acompanhada por milhões de pessoas. Mas, para grande parte da população, a campanha ainda é apenas um ruído ao fundo.

A eleição começará de verdade quando o cidadão perceber que precisa tomar uma decisão.

Provavelmente nas duas últimas semanas.

Talvez depois do dia 20.

E olhe lá.

Até esse momento chegar, o político continuará preocupado com a próxima pesquisa, o assessor com a próxima agenda, o marqueteiro com a próxima peça, o balançador de bandeira com o próximo cruzamento e a formiguinha com a próxima rua.

O povo?

O povo continuará tentando pagar as contas, entender os escândalos de Brasília, acompanhar as novas revelações do caso Vorcaro e torcer para que, pelo menos no próximo domingo, o time do coração não decepcione outra vez.

Porque a campanha já começou para quem vive dela. Pra quem decide a eleição, ainda não.

Foto de Gabriel Scarpellini

Gabriel Scarpellini

Gabriel Scarpellini é membro fundador da Alcateia Política, é publicitário e especialista em Marketing Político e Comunicação Governamental pelo IDP. Sócio da GAS 360, agência de publicidade, e atua também como consultor em marketing político.

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