O primeiro debate presidencial de 2026 seis púlpitos, três candidatos e muitas ausências. Ilustração editorial inspirada no registro fotográfico de Daniel TeixeiraEstadão.

Por que não decidir a eleição presidencial no primeiro turno?

A eleição de 2026 poderá repetir a polarização dos últimos anos ou transformar o primeiro turno em uma decisão sobre o futuro imediato do Brasil

 

Por Nilson Hashizumi

A campanha presidencial começou oficialmente com 13 chapas registradas, mas as pesquisas indicam que a disputa real continua concentrada em apenas duas candidaturas: a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, e a do senador Flávio Bolsonaro, do PL.

Os dois representam campos políticos bastante conhecidos do eleitorado. De um lado, Lula lidera uma frente progressista e democrática formada durante seu atual governo. Do outro, Flávio Bolsonaro procura preservar o capital político, eleitoral e emocional constituído em torno do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Pode-se gostar ou não dessa configuração. Pode-se lamentar a chamada polarização. Pode-se desejar uma terceira via, um nome novo ou uma alternativa que supostamente consiga escapar dos conflitos dos últimos anos. O problema é que eleições não são decididas pelos desejos dos comentaristas, pelas articulações partidárias nem pelas expectativas dos candidatos. São decididas pelo voto.

E, até agora, as eleitoras e os eleitores brasileiros parecem ter feito uma escolha bastante objetiva: querem decidir entre Lula e o representante do bolsonarismo.

O Datafolha divulgado em 21 de agosto mostrou Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno, seguido por Flávio Bolsonaro, com 33%. Muito atrás aparecem Ronaldo Caiado, com 5%; Renan Santos, com 4%; Romeu Zema, com 3%; Augusto Cury e Pablo Marçal, ambos com 2%. As demais candidaturas oscilam entre 0% e 1%. A pesquisa ouviu 2.058 pessoas em 128 municípios e possui margem de erro de dois pontos percentuais. [Os resultados completos foram publicados pela Folha de S.Paulo – aqui).

Mais do que uma fotografia isolada, esses números confirmam uma tendência observada há meses: a baixíssima mobilidade do segundo pelotão.

Nenhuma das candidaturas apresentadas como alternativa conseguiu, até agora, romper a barreira que separa os dois líderes dos demais concorrentes. Há uma eleição formalmente disputada por 13 chapas, mas existe outra eleição — aquela percebida concretamente pelo eleitorado — que permanece concentrada em dois projetos políticos.

 

O debate dos ausentes

O primeiro debate presidencial, realizado no domingo, 23 de agosto, pela Band, em parceria com Estadão, TV Cultura, Gazeta e Jovem Pan, talvez tenha oferecido a representação mais evidente dessa realidade.

Foram convidados Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Augusto Cury. Apenas três compareceram: Caiado, Renan e Cury. Foi o debate inaugural com o menor número de participantes desde a eleição de 1989. [A ausência dos principais candidatos e o esvaziamento do encontro foram registrados pela imprensa – aqui].

Romeu Zema desistiu de participar no último momento. Sua ausência provocou especulações sobre as dificuldades e até sobre a continuidade de uma candidatura que ainda não encontrou seu espaço na disputa nacional.

Augusto Cury também chegou a considerar a desistência quando já estava no local. Pouco depois, desistiu de desistir e entrou no estúdio. O episódio, curioso por si mesmo, acabou simbolizando a insegurança das candidaturas que tentam ocupar um espaço eleitoral aparentemente muito menor do que imaginavam.

O debate serviu menos para alterar a correlação de forças e mais para apresentar as intenções futuras de seus participantes.

Renan Santos utilizou o encontro para marcar posição. Seu discurso agressivo, carregado de provocações e frases destinadas às redes sociais, parece menos orientado por uma expectativa real de vitória em 2026 e mais pela tentativa de construir uma candidatura competitiva para 2030. Aos 4%, Renan precisa sobreviver politicamente a esta eleição antes de pensar seriamente na próxima.

Augusto Cury procura ocupar o lugar do outsider. Apresenta-se como alguém que não pertence à política tradicional e tenta transferir para o ambiente eleitoral a popularidade conquistada como escritor. Entretanto, reconhecimento de nome e capacidade de vender livros não se transformam automaticamente em confiança para governar um país. Seus 2% demonstram que, por enquanto, a candidatura desperta curiosidade, mas não adesão significativa.

Romeu Zema deixou recentemente o governo de Minas Gerais e procura projetar nacionalmente a imagem de gestor pragmático. Seu discurso econômico possui identidade mais definida, mas suas formulações sobre educação, cultura, segurança pública e desigualdade ainda parecem insuficientes para um projeto nacional. Além disso, depois de dois mandatos à frente de um dos maiores estados do país, continua pouco conhecido por uma parcela expressiva da população.

Ronaldo Caiado é o mais experiente e o mais bem colocado entre eles. Deixou o governo de Goiás com índices elevados de aprovação e procura apresentar os resultados obtidos em seu estado como credencial para governar o Brasil. Entretanto, desempenho estadual não significa automaticamente viabilidade nacional. Caiado ainda enfrenta o mesmo obstáculo de Zema: é muito conhecido em seu território de origem, mas permanece distante do cotidiano de milhões de brasileiros.

 

Treze candidaturas, duas escolhas

A fragmentação das candidaturas não significa necessariamente diversidade política real.

Quando observamos os 13 nomes registrados, percebemos que várias candidaturas disputam parcelas semelhantes do eleitorado conservador, liberal ou antipetista. No campo progressista também existem candidaturas menores, embora o voto esteja muito mais concentrado em Lula.

Essa concentração é importante, mas ainda não garante uma vitória no primeiro turno.

Para ser eleito sem uma segunda votação, um candidato precisa alcançar mais da metade dos votos válidos. Lula aparece com 39% das intenções totais no Datafolha. Considerados os votos brancos, nulos e os indecisos, encontra-se mais próximo da maioria dos votos válidos do que o número bruto inicialmente sugere, mas ainda precisa crescer.

Portanto, vencer no primeiro turno não é uma realidade dada. É uma possibilidade política que precisaria ser construída.

Isso dependeria, principalmente, da concentração dos votos progressistas, da redução dos indecisos e da capacidade da campanha de dialogar com eleitores que rejeitam o bolsonarismo, mas ainda não decidiram apoiar Lula.

Também dependeria de uma pergunta muito objetiva: se o segundo turno tende a reproduzir exatamente a mesma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, por que esperar mais quatro semanas para tomar uma decisão que já está colocada diante do país?

 

Segundo turno não é desperdício — mas pode ser dispensável

É preciso reconhecer que o segundo turno é uma conquista democrática. Sua realização jamais deve ser tratada simplesmente como desperdício. Ele existe para assegurar que o presidente seja escolhido pela maioria dos votos válidos quando nenhum candidato alcance essa maioria na primeira votação.

Mas a democracia também permite que a população encerre a eleição no primeiro turno.

Se a maioria já estiver convencida, não há obrigação política de prolongar uma disputa apenas para cumprir o roteiro imaginado pelos candidatos que não conseguiram se tornar competitivos.

Um segundo turno mobiliza novamente a Justiça Eleitoral, partidos, servidores, mesários, forças de segurança, imprensa e milhões de eleitoras e eleitores. Exige novos deslocamentos, amplia os gastos das campanhas e prolonga por quase um mês um ambiente de tensão política que afeta o funcionamento das instituições, da economia e da própria vida cotidiana.

Não é argumento suficiente para eliminar uma etapa prevista constitucionalmente. Mas é uma razão legítima para perguntar se essa etapa será realmente necessária.

Além disso, a experiência recente demonstra que as semanas adicionais de campanha nem sempre servem para aprofundar o debate sobre programas de governo. Muitas vezes, tornam-se território fértil para ataques pessoais, desinformação, manipulação emocional, notícias falsas e acirramento da hostilidade entre brasileiros.

 

Uma decisão sobre o futuro, não sobre o cansaço

A vitória de Lula no primeiro turno não deve ser defendida apenas porque as pessoas estão cansadas da polarização. Cansaço não constitui projeto de país.

Ela precisa ser sustentada por razões políticas concretas: a defesa da democracia, a continuidade dos programas sociais, a valorização do salário-mínimo, o combate à fome, a reconstrução das políticas públicas, a geração de empregos, a proteção do meio ambiente, o fortalecimento do SUS, a ampliação das oportunidades educacionais e a retomada do protagonismo internacional do Brasil.

É sobre esses temas que a campanha precisa conversar com a sociedade.

O argumento do primeiro turno somente será legítimo se estiver associado à defesa de um projeto capaz de melhorar a vida das pessoas. Não se trata de silenciar adversários, impedir debates ou diminuir a importância das demais candidaturas. Trata-se de reconhecer a vontade majoritária quando ela se manifestar.

O Datafolha mostra Lula vencendo Caiado por 47% a 40%, Zema por 48% a 38% e Renan Santos por 47% a 37% em eventuais segundos turnos. Contra Flávio Bolsonaro, Lula aparece numericamente à frente, por 47% a 43%, embora o resultado configure empate técnico no limite da margem de erro. Os diferentes cenários foram divulgados em 21 de agosto – aqui.

Portanto, a vitória não está garantida. E justamente por não estar garantida, cada voto terá importância decisiva.

As candidaturas intermediárias ainda terão tempo para tentar demonstrar sua viabilidade. Precisarão, porém, apresentar algo mais consistente do que a promessa genérica de superar a polarização. Terão de convencer milhões de brasileiros de que representam um projeto melhor, mais seguro e mais realizável.

Até agora, não conseguiram.

Se a disputa final será entre Lula e Flávio Bolsonaro; se os demais candidatos continuam eleitoralmente estacionados; se o campo progressista reconhece em Lula a liderança capaz de derrotar o bolsonarismo; e se existe uma maioria disposta a preservar a democracia e avançar nas políticas sociais, então a pergunta precisa ser feita desde já:

 

Por que não decidir a eleição presidencial no primeiro turno?

Encerrar a eleição em 4 de outubro não significaria fugir do debate. Significaria transformar uma maioria potencial em uma decisão política clara.

A resposta não será dada pelas pesquisas, pelos institutos ou pelos analistas. Será dada por cada eleitora e cada eleitor diante da urna.

Foto de Nilson Hashizumi

Nilson Hashizumi

Estrategista de marketing político e corporativo, jornalista, fotógrafo, gestor de cultura e preparador de candidatos, grupos e agremiações políticas, com MBA em Comunicação Governamental e Marketing Político. Co-fundador da Alcateia Política, orientou, coordenou e defendeu candidatos majoritários em São Paulo e Pará e candidatos proporcionais em São Paulo e Minas Gerais. Orientado a resultados, trabalha com visão de processos na gestão da comunicação on e off-line para a construção de reputação, imagem e formação de opinião. Atuou por mais de 30 anos na iniciativa privada, organizações da sociedade civil e entidades de classe antes de atuar em favor de entes políticos. Associado ao CAMP. https://www.linkedin.com/in/nilsonhashizumi/

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