Mão movimentando uma peça de xadrez sobre um tabuleiro, com elementos gráficos ao fundo, representando escolhas estratégicas, planejamento e a construção de vitórias políticas que vão além do resultado das urnas.

Os vários tipos de vitória na política

Há uma frase, que eu disse recentemente em minha palestra no COMPOL Brasil, em Florianópolis (SC), que deveria ser pregada na parede de toda sala de guerra eleitoral: “vencer ou perder é apenas um detalhe”. Numa profissão obcecada por placares — quem subiu, quem caiu, quem “ganhou o debate” —, a afirmação soa quase como heresia. Mas é precisamente essa contradição aparente que revela algo mais maduro sobre o ofício de fazer política: o resultado da urna é o produto mais visível de uma campanha, não o seu propósito mais profundo.

 

O eleitor mente,

e a pesquisa sabe disso

 

Comece pelo dado, já que é nele que a política moderna deposita sua fé. As pesquisas quantitativas e qualitativas são hoje o esqueleto de qualquer campanha minimamente organizada. No entanto, os próprios profissionais que vivem de números sabem de uma verdade incômoda: o eleitor mente. Não por má-fé, mas por dois mecanismos psicológicos bem documentados — o medo, que aparece com mais força em disputas acirradas, e a vergonha de parecer “desinformado”, que faz a pessoa responder sobre temas que sequer domina. Some-se a isso a Espiral do Silêncio, aquele reflexo humano de esconder a opinião que se sente minoritária, e o retrato fica completo: pesquisa é bússola, não mapa.

É por isso que a experiência ainda pesa — e aqui vale uma correção de rota importante: experiência não é sinônimo de idade. O que separa um estrategista maduro de um iniciante não é o número de aniversários, mas o volume de repertório acumulado. No Brasil, um profissional de comunicação política pode atravessar três ciclos eleitorais inteiros — 2022, 2024, 2026, por exemplo — em apenas quatro anos. É como comparar dois pilotos: um voou o mesmo trajeto por vinte anos, o outro cruzou vinte trajetos diferentes em dois. A quilometragem de voo pode ser equivalente; o que muda é o tipo de turbulência que cada um aprendeu a reconhecer.

Isso explica também por que o salto de “estrategista digital” para “estrategista de campanha” é traiçoeiro. Dominar métricas de engajamento não ensina a conduzir uma operação inteira — a lógica é inversa: a operação de campanha contém o digital, não o contrário. Quem pula essa hierarquia corre o risco de, nas palavras do próprio ofício, “ficar queimado já na largada”.

 

O aperto de mão

só mudou de tela

 

Existe um mito confortável de que as redes sociais mataram a política de proximidade, aquela do comício, do cafezinho, do aperto de mão. Não é bem assim. O que aconteceu foi uma tradução, não uma substituição. Toda campanha bem estruturada ainda segue três fases clássicas: sensibilização (apresentar o candidato, inseri-lo no cotidiano do eleitor), motivação (conectar essa presença a uma causa maior) e mobilização (transformar quem apenas segue em quem efetivamente milita, o “seguidor-embaixador”).

A metáfora mais precisa talvez seja esta: hoje, a política tem duas gramáticas de contato — o aperto de tecla, no ambiente virtual, e o aperto de mão, nos “momentos de realidade” da rua. Uma não substitui a outra; elas se alimentam mutuamente, como maré que empurra a rede para a rua e a rua de volta para a rede, agora como prova social do resultado alcançado.

 

Sucesso não é

sinônimo de vitória

 

Aqui mora a ideia mais desconfortável — e mais honesta — de toda a conversa. Existem candidatos que sabem perder. Que entendem a política como projeto de médio e longo prazos e recomeçam a campanha seguinte no dia posterior à derrota, num gesto de respeito à vontade popular. E existem os que não sabem, e que, por atitude inconsequente, arrastam tudo para um abismo do qual a saída é sempre mais demorada do que a queda.

A régua de sucesso proposta é simples de enunciar e difícil de praticar: uma candidatura é vitoriosa quando o candidato sai da disputa politicamente maior do que entrou — independentemente do resultado nas urnas. É a diferença entre medir uma campanha pelo termômetro (a temperatura do dia da eleição) e medir pelo relógio (o acúmulo de reputação ao longo do tempo).

 

Não existe fórmula,

existe um mix

 

Se há algo que décadas de campanhas ensinaram, é desconfiar de fórmulas fechadas. Não existe um ingrediente que garanta vitória — existe sempre um mix: rua e digital, online e offline, estratégia e comunicação, a depender do momento e do terreno. O que se pode, isso sim, é montar um roteiro de método: entender identidade, imagem e reputação do candidato; mapear com precisão o perfil do eleitorado; ler o contexto político, social e econômico da disputa; apoiar-se em diagnóstico robusto, combinando pesquisa quanti e quali; monitorar redes com tecnologia; e — ponto cada vez mais central — usar inteligência artificial sem nunca terceirizar a ela o comando da estratégia. A IA sugere; quem decide continua sendo humano. Checagem, nesse novo tabuleiro, deixou de ser burocracia e virou palavra de ordem.

 

Coerência

é o novo carisma

 

Por fim, um alerta que vale para qualquer figura pública, não só para políticos: a imagem projetada nas redes precisa resistir ao encontro real com o eleitor. Não adianta construir uma identidade digital que desmorona, no primeiro contato, com o histórico de condutas do candidato. A comunicação política ficou mais horizontal, mais ágil, mais exposta — e, por isso mesmo, mais dependente de coerência entre o que se diz online e o que se é offline. Criatividade sem essa coerência não é ousadia, é risco.

 

O futuro é mais

pergunta que resposta

 

Sobre o que vem a seguir, a honestidade intelectual, mais rara em qualquer área técnica, também aparece aqui: mais vale um bom questionamento do que uma certeza absoluta. As ferramentas tecnológicas caminham para mais previsibilidade, mas a política — feita por seres humanos falhos e criativos — sempre guardará uma margem de imprevisibilidade. E talvez seja exatamente essa margem, essa fresta de incerteza, o que ainda torna a política um ofício humano, e não apenas um exercício de otimização de algoritmos.

No fim, a lição que atravessa toda essa reflexão é simples de enunciar, difícil de sustentar na pressa do dia a dia eleitoral: dados orientam, mas não decidem; redes aproximam, mas não substituem o encontro; e vitória, por mais que seja o que todos buscam, nunca deveria ser a única métrica de uma campanha bem-feita.

Foto de João Henrique Faria

João Henrique Faria

João Henrique Faria é Mineiro. Cataguasense. Consultor Político. Estrategista. Jornalista. Professor Universitário. Proprietário da Fator Inteligência e Marketing, empresa há 21 anos no mercado, especializada em Marketing Político Eleitoral e Governamental. Foi Estrategista e/ou Coordenador em mais de 100 campanhas eleitorais para o Executivo e Legislativo. Trabalhou por 11 anos na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. É cofundador da Alcateia Política. Membro do CAMP (Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político). Professor universitário desde 1991, coordenou o primeiro curso de pós-graduação em Marketing Político do Brasil, na Escola do Legislativo da ALMG. Hoje está à frente da disciplina “Comunicação e Marketing Político - Eleitoral e Governamental”, na pós-graduação em Comunicação Pública e Governamental da PUC Minas e coordena consultorias para prefeituras e câmaras municipais no campo do Diagnóstico Organizacional, Planejamento e Comunicação e Marketing. Criou e é um dos organizadores dos seminários “Marketing 360 para Mandatos”.

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